Sofrimento Moral de Enfermeiros no Século XXI

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Por: João Paulo Victorino e Carla A. Arena Ventura

O processo de trabalho desenvolvido pelos enfermeiros nos diferentes contextos em que atuam pode expô-los a situações nas quais a necessidade de realizar a tomada de decisões tange suas crenças pessoais e morais. Desta forma, os enfermeiros tendem a se deparar com situações nas quais suas ações tornam-se incoerentes com as suas próprias convicções (CORLEY et al, 2001). Questões como qualidade de vida, tomada de decisão ética e o direito de recusa a alguma oferta de tratamento são somente alguns dos dilemas que enfermeiros e outros profissionais de saúde tendem a lidar rotineiramente.

Deste modo, o profissional reconhece o correto a ser feito – aquilo que julga como moralmente aceito –  mas depara-se impossibilitado de empreender essa ação, seja por erros de julgamento, falhas pessoais, fraquezas de caráter ou mesmo circunstâncias alheias ao controle pessoal (BARLEM et al, 2012).

Este conjunto de ações foi definido na década de 1980 por Andrew Jameton como sofrimento moral – moral distress –  ou seja, o sofrimento decorrente da incoerência entre as ações das pessoas e suas convicções (JAMETON, 1984). Trata-se de um desequilíbrio psicológico que resulta do reconhecimento de uma ação eticamente apropriada, mas que é difícil de ser realizada devido a obstáculos institucionais, como imposição hierárquica da equipe médica frente a equipe de enfermagem, políticas institucionais, número insuficiente de profissionais na equipe e tempo insuficiente para as tomadas de decisões (VEER et al, 2013; CORLEY et al, 2001 & JAMETON, 1984). Configura-se como um fenômeno que apresenta sérias implicações para os enfermeiros e pacientes, e que nunca poderá ser definitivamente eliminado, embora haja a possibilidade de “atenuar” suas causas e efeitos. Nesse sentido, é importante sua correta identificação e acurada compreensão de todos os fatores relacionados (O’CONNELL, 2014).

Embora grande parte dos estudos acerca desta temática tenha sido desenvolvido na terapia intensiva, tendo em vista a complexidade do cuidado prestado e a constante exposição dos profissionais de saúde às tomadas de decisões (PENDRY, 2007), é importante elucidar que o sofrimento moral pode afetar todos os profissionais, embora em níveis distintos, de acordo com a exposição aos fatores que resultam em sua ocorrência.

Como enfermeiros dispostos a lidarem com esse tipo de situação, eles tendem a ter seus valores pessoais e profissionais comprometidos e então, vivenciam o que é denominado sofrimento moral – ou seja, aquilo que ocorre como resultado de ações contrárias aos valores pessoais e profissionais (AMERICAN ASSOCIATION OF CRITICAL-CARE NURSES, 2004).
Embora o sofrimento moral tenha se tornado campo de diversos estudos mundialmente, deve-se considerar a ausência de investigações que relacionam esse tema às diversas áreas do conhecimento, o que nos permite afirmar a existência de uma lacuna expressiva no contexto científico sobre esta temática. Logo, é imperativa a necessidade de estudos que abordem esse assunto e contribuam com a produção científica do saber relacionada ao tema em questão.

A literatura científica mundial tem caracterizado o sofrimento moral como um dos principais problemas éticos que afetam não somente a saúde do profissional, mas também a qualidade do cuidado prestado e o sistema de saúde, seja ele público ou privado (BARLEM & RAMOS, 2014; JOHNSTONE & HUTCHINSON, 2013), visto que afeta a saúde mental, física e espiritual dos profissionais, além dos aspectos associados às relações sociais e de trabalho.

O sofrimento moral provoca sentimentos como frustração, culpa, estresse, ansiedade, insegurança, medo e depressão, o que interfere diretamente na capacidade decisória destes profissionais. Sobretudo o sofrimento moral pode ainda ocasionar burnout e consequentemente contribuir com a saída do profissional de seu emprego (SHOORIDEH et al, 2014), ocasionando uma sobrecarga na equipe de trabalho e, consequentemente, no próprio sistema de saúde.

Durante a rotina de trabalho, os enfermeiros podem vivenciar o sofrimento moral sem compreender seu significado, consequências e, sobretudo, sem poder exercer a profissão em sua plenitude, o que inviabiliza a garantia dos direitos do cliente, de advogar em sua defesa sem saber como enfrentar tais contextos permeados por dúvidas, impotência e sofrimento, sintomas básicos associados ao sofrimento moral (BARLEM, 2012).

Referências

AMERICAN ASSOCIATION OF CRITICAL-CARE NURSES. AACN Public Policy Position Statement: Moral Distress. Aliso Viejo, Calif: American Association of Critical-Care Nurses; July, 2004.

BARLEM, E.L.D; LUNARDI, V.L; LUNARDI. G.L et al. Vivência do Sofrimento Moral na Enfermagem: Percepção da Enfermeira. Rev. Esc Enferm USP. V. 46, n. 3, p.681-68, 2012.

BARLEM, E.L.D. & RAMOS, F.R.S. Constructing a Theoretical Model of Moral Distress. Nursing Ethics. V.22, n. 5, p. 608-615, 201

BARLEM, E.L.D. Reconfigurando o Sofrimento Moral na Enfermagem: Uma Visão Focaultiana. Tese (Doutorado). Universidade Federal do Rio Grande. Escola de Enfermagem, Rio Grande, 2012.

CORLEY, M.C; ELSWICK, R.K; GORMAN, M and CLOR T. Development and Evaluation of a Moral Distress Scale. Methodological Issues in Nursing Research, V.33, n. 2, p. 250-256, 2001.

JAMETON, A. Nursing Practice: The Ethical Issues. Englewood Cliff, NJ; Prentice-Hall Inc; 1984.

JOHNSTONE, M.J & HUTCHINSON A. Moral Distress – Time to Abandon a Flawed Nursing constructo? Nursing Ethics, V. 22, n.1, p. 5-14, 2013.

O’CONNELL, C. Gender and the Experience of Moral Distress in Critical-Care Nurses. Nursing Ethics, V. 22, n. 1, p. 32-42, 2014.

PENDRY, P.S. Moral Distress: Recognizing it to Retain Nurses. Nursing Economics, V. 25, n. 4, p.217-221, 2007.

SHOORIDEH, F A; ASHKTORAB, T; YAGHMAEI, F and MAJD, V.E.R. Relationship Between ICU Nurses’ Moral Distress With Bournout and Antecipated Turnover. Nursing Ethics, V. 22, n. 1, p. 64-76, 2014.

VEER, A.J.E; FRANCKE, A.L; STRUIJS, A and WILLEMS, D.L. Determinants of Moral Distress in Daily Nursing Practice: A Cross Sectional Correlational Questionnaire Survey. International Journal of Nursing Studies, V. 50, p. 100-108, 2013.

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