Estigma em pessoas com transtornos mentais: barreira de acesso aos serviços de saúde?

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Autoras: Bruna Sordi e Raquel Fernandes (membros do GEPESADES; mestrandas na EERP-USP)

O termo “estigma” foi criado pelos gregos para representar sinais no corpo feitos com cortes ou fogo, denunciando que o portador era escravo, criminoso ou traidor e anunciando que algo de mau o indivíduo possuía. Erving Goffman (1988), sociólogo norte-americano, conceituou o “estigma” na perspectiva da construção social, numa relação entre atributo e estereótipo, ou seja, o indivíduo ‘diferente’ daquilo que foi dito e estabelecido como ‘normal’ na sociedade, destaca-se por sua ‘anormalidade’. Isso encoraja a sociedade ao preconceito e à discriminação, desvalorizando as pessoas que possuem características indesejáveis.

Ao longo da história, as pessoas com transtornos mentais passaram por muitas injustiças por serem consideradas ameaçadoras, tanto para si, quanto para a sociedade. Foram excluídas da vida, privadas de liberdade e retiradas de sua dignidade. Classificadas pela Organização Mundial da Saúde (OMS) como grupo vulnerável e como uma das populações mais marginalizadas dos países, as pessoas com transtornos mentais enfrentam, ainda, muitas dificuldades em seu cotidiano, apesar dos avanços que ocorreram na saúde mental, decorrentes da Reforma Psiquiátrica.

Como a segregação das pessoas com transtornos mentais ainda acontece, um aspecto importante para se pensar é sobre o estigma com relação ao transtorno mental e como ele interfere no acesso dessas pessoas aos serviços de saúde.

É interessante pensarmos em alguns conceitos do estigma na saúde mental, como o de Corrigan (2004), psiquiatra americano. Ele explica que existem dois tipos principais de estigma que se inter-relacionam, o estigma público, o qual ocorre quando um grupo adquire preconceito em relação a outro grupo, e o auto-estigma, que refere-se a membros de um grupo estigmatizado que internalizam o estigma público. Vale ressaltar que o estigma público e o auto-estigma ocorrem em interação, a distinção é, apenas, para o entendimento dos conceitos.

Estereótipo (crença negativa sobre um grupo com relação à incompetência, fraqueza de caráter e periculosidade), preconceito (concordância com a crença e/ou reação emocional negativa, como raiva ou medo) e discriminação (comportamento resposta negativo, como evitação de trabalho, oportunidades de habitação e retenção de ajuda) são os principais componentes que caracterizam o estigma. Para o auto-estigma, tais componentes são aplicados a si mesmo pelo indivíduo.

Assim podemos pensar que as consequências do estigma possuem um impacto principal, que é a sua internalização. Neste aspecto, o indivíduo torna-se consciente dos estereótipos negativos que outras pessoas atribuem e, necessariamente, concorda com esses estereótipos e os aplica a si mesmo (CORRIGAN et al., 2006).

Duas implicações merecem destaque em relação ao auto-estigma: a auto-desvalorização, decorrente da percepção de inclusão em categoria desvalorizada e o auto-isolamento, como consequência da preocupação sobre como será a resposta das outras pessoas diante de sua condição. As implicações ocorrem, portanto, em ciclo vicioso, no qual aspectos da recuperação são bloqueados no tratamento, bem como outras esferas da vida do indivíduo, como tentativas de evitar a estigmatização, provocando diminuição de suporte social (WATSON et al., 2007).

Alguns autores discutem que a baixa adesão ao tratamento e até a falta de busca por ajuda podem ser entendidas como uma tentativa de evitar a estigmatização (CORRIGAN et al., 2003; PELUSO; BLAY, 2004; CORRIGAN, 2004; RÜSCH et al., 2005). Assim, em muitas situações de saúde, a condição de estigmatização pode provocar maiores danos do que a própria doença em si e contribuir, de forma significativa, para a perda da qualidade de vida das pessoas (PELUSO; BLAY, 2008; RONZANI et al., 2009).

Neste contexto, a maneira como as pessoas com transtornos mentais são vistas pelos profissionais de saúde pode ter um impacto significativo sobre os resultados do tratamento e na qualidade de vida, pois os profissionais de saúde são responsáveis pela prestação de cuidados, além de ser um público relevante em ações de prevenção, tratamento e divulgação com potencial para a redução do estigma e discriminação (KASSAM et al., 2012).

Torna-se importante, portanto, o desenvolvimento de estudos com foco nas atitudes de profissionais de saúde, tendo em vista que os serviços de saúde são o principal caminho pelo qual as pessoas com transtornos mentais são capazes de alcançar integração na sociedade e que o estigma existente neste contexto funciona como barreira para a busca de tratamentos e qualidade de vida das pessoas com transtornos mentais.

Referências

KASSAM et al. The development and psychometric properties of a new scale to measure mental illness related stigma by health care providers: The opening minds scale for Health Care Providers (OMS-HC). BMC Psychiatry 2012; 62:2-12.

PELUSO, E.; BLAY, S. L. Community perception of mental disorders – a systematic review of Latin American and Caribbean studies. Social psychiatry and psychiatric epidemiology, v. 39, n. 12, p. 955–961, 2004.

CORRIGAN, P.W. How stigma interferes with mental health care. American Psychologist, v.59, p.614–625, 2004.

GOFFMAN, E. Estigma: notas sobre a manipulação da identidade deteriorada. Rio de Janeiro: Editora Guanabara, 1988.

RÜSCH, N.; ANGERMEYER, M. C.; CORRIGAN, P. W. Mental illness stigma: Concepts, consequences, and initiatives to reduce stigma. European Psychiatry, v. 20, n. 8, p. 529–539, 2005.

CORRIGAN P et al. An attribution model of public discrimination towards persons with mental illness. J Health Soc Behav 2003; 44:162–179.

WATSON, A. C.; CORRIGAN, P. W.; LARSON, J. E. et al. Self-stigma in people with mental illness. Schizophrenia Bulletin, v. 33, n. 6, p. 1312-1318, 2007.

CORRIGAN, P. W.; WATSON, A. C.; BARR, L. The self-stigma of mental illness: implications for self-esteem and self-efficacy. Journal of Social and Clinical Psychology, v. 25, n. 8, p. 875-884, 2006.

RONZANI TM, HIGGINS-BIDDLE J, FURTADO EF. Stigmatization of alcohol and other drug users by primary care providers in Southeast Brazil. Social Science & Medicine 2009; 69:1080-84.

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