Responsabilidade Social e Protagonismo Universitário

Este é o segundo texto que escrevo para o blog, mas apesar de tê-lo concretizado com as minhas palavras, trago comigo as inquietudes de alguns graduandos que têm feito um trabalho excepcional enquanto estudantes, jovens e cidadãos. Prova disto foi o evento realizado por este grupo que compõe a Liga de Direitos Humanos e Saúde da Universidade de São Paulo (LiDiHuS), contando também com membros do GEPESADES, no mês de julho em comemoração aos 24 anos do Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA). Esta atividade foi realizada em uma escola pública da cidade de Ribeirão Preto e seu resultado foi magnificamente positivo, com direito a avaliação do conhecimento depreendido e ânsia por mais eventos de extensão comunitária.

Mais um trabalho voluntário? Não, este se diferencia por ter fundamentação científica e ser viabilizado monetariamente por meio de eventos organizados pela LiDiHuS ao longo do primeiro semestre de 2014.

Certo, mas e você com isso?

Você pode ser jovem, experiente, universitário, graduado ou não, pode ser paulista ou não, negro, branco, não importa: você é um cidadão e ajuda a manter as universidades públicas deste país.

Trago isto à tona porque escrevo em um dos momentos mais delicados da universidade que representa o maior centro produtor de conhecimento do país e que ostenta hoje um dos maiores referenciais do mundo em ciência.

Não entrarei no mérito político ou no âmbito partidário das grandes discussões que abrangem esta temática neste texto, mas é necessário que eu me posicione para trazer à luz alguns esclarecimentos. Nas últimas semanas alguns veículos de informação (como Folha de São Paulo e Carta Capital) levantaram a possibilidade do pagamento de mensalidades na Universidade de São Paulo, e aparentemente uma grande parcela da sociedade tem posicionamento favorável com a justificativa de que a universidade não deveria ser mantida com verba pública, e que os estudantes que têm tido acesso ao ensino superior público são os que poderiam pagar no setor privado. Confesso que isto me preocupou profundamente porque expôs que as pessoas desconhecem que a universidade pública tem se democratizado e deixou claro que as pessoas desconhecem também o objetivo final deste investimento.

E afinal, qual o papel de todos estes universitários que eu ajudo a custear? Por que a sociedade deve manter uma universidade pública, gratuita e de qualidade? E qual a relação dos jovens citados no início do texto com tudo isto?

Pois bem, a ciência engloba as grandes questões da humanidade, e estes questionamentos devem vir munidos de sensibilidade social porque afinal, teu conhecimento serve para que(m)?

A Universidade é um espaço institucional de educação, em que se articulam, ou deveriam articular-se o ensino, pesquisa e extensão com a finalidade de formar profissionais críticos e criativos capazes de construir, com seu trabalho, uma sociedade democrática e solidária (RIOS, 2009).

Conhecimento é ferramenta para redução de desigualdades, para mudança e justiça social! Dito isto, afirmo que a universidade não pode ser um centro de treinamento e/ou formação profissional que atende às demandas comerciais e econômicas. Ela deve ser um local onde se forma cidadãos e se cria transformadores do mundo.

Dentro da Universidade se gera o saber em compromisso com a verdade porque ela é a base de construção do conhecimento e se alia ao saber comprometido com a justiça e com a igualdade, porque estas são as bases das relações humanas e da estrutura social inerentes à condição humana (BELLONI,1992).

Dessa forma, o gasto com ciência é na verdade investimento em uma sociedade mais justa, e é claro que existem papéis a serem cumpridos. Jovens como os da LiDiHuS têm transposto os muros da universidade para criar o mundo que anseiam e isto deve ser entendido como a realidade que precisa se perpetuar através de TODOS os estudantes universitários.

Aqui encontramos meios de lidar com condições sociais diversas, curar doenças, recuperar organismos e preservar o meio ambiente, buscando caminhos para a sustentabilidade e aprendendo a educar. Aqui direitos se tornam garantidos e minorias saem da margem para virem ao centro de uma sociedade da qual sempre deveriam ter feito parte. Aqui se consolida uma sociedade mais justa, se faz a diferença, se muda o mundo todos os dias, e quem paga por isso é você!

Mas é claro que responsabilidade social não deve ser uma característica estudantil, ela deve ser uma característica humana! Que mundo você tem construído? Na semana passada ouvi de uma docente fantástica convidada do Canadá (Lilian Magalhães), em uma aula da EERP-USP, que temos banalizado a injustiça, que não estamos redistribuindo direitos e que a ciência transforma o mundo, confesso que fiquei emocionada e orgulhosa de fazer parte de uma força motriz modificadora da sociedade, pois é assim que defino uma universidade! Mas se todos nós somos cidadãos eu nos responsabilizo por essa redistribuição de direitos e convido você a despertar, a se incomodar e se mover em relação às injustiças e desigualdades.

Desejo que este texto chegue até você e que se propague como atitude no seu cotidiano! Um abraço e até breve meu querido leitor!

 

 

Referências:

BELLONI, I . Função da Universidade:notas para reflexão. In; BRANDÃO,Z. et al. Universidade e Educação.Campinas:Papirus/Cedes;São Paulo/Andre;Anped,1992.p.71-78.

RIOS,T. Ética na Docência Universitária a caminho de uma universidade pedagógica? In: Pimenta, S.G.; Almeida M.I. Pedagogia Universitária caminho para formação de professores. São Paulo: Cortez Editora,2009. p.229-245.

Bruna Nakayama
Enfermeira generalista pela EERP/USP- Centro Colaborador da Organização Mundial de Saúde (OMS) e pesquisadora. Mestranda em Ciências pela Universidade de São Paulo. Membro do Grupo de Estudos e Pesquisas em Enfermagem, Saúde Global, Direito e Desenvolvimento (GEPESADES), idealizadora e principal responsável pela fundação da Liga de Direitos Humanos e Saúde/USP. Militante pelo desenvolvimento social. Interessada nas discussões sobre políticas sociais afirmativas e causas humanitárias.

Comments 4

  • Bruna, parabéns pelo texto. Achei a estrutura bastante realista, integrando visões que, de fato, precisam dialogar cada vez mais, tais como a vida acadêmica, a participação comunitária e a consciência política, que foram temas que, de uma forma ou de outra, apareceram no seu texto. Essas sementes são importantes para o futuro do Brasil.

    • Obrigada Gustavo! Gostei muito da devolutiva,me fez perceber que essa semente está cada vez mais presente no nosso mundo acadêmico e me dá esperança de bons frutos futuros.

  • Eu me emociono quando vejo uma menina (sem qualquer preconceito ou ato pejorativo, mas sim carinhoso), com alta demonstração de evolução e ampliação das sinapses do saber com profunda assertividade retórica e que se Deus quiser não será engolida pela vaidade academicista, pois suas virtudes e valores são pontos de transformação no mais puro e alto grau do afeto Spinozano. Passei a admirar o teu propósito de vida que fica claro. Parabéns Bruna Nakayama.

  • […] Este é o segundo texto que escrevo para o blog, mas apesar de tê-lo concretizado com as minhas palavras, trago comigo as inquietudes de alguns graduandos que têm feito um trabalho excepcional enquanto estudantes, jovens e cidadãos. Prova disto foi o evento realizado por este grupo que compõe a Liga de Direitos Humanos e Saúde… FONTE […]